Departamento de Internet e Conteúdos Digitais
© 2000 - 2010 Editora Ática S.A.

O historiador e escritor Edgard Luiz de Barros é um dos criadores da coleção "O Cotidiano da História". Lançada originalmente há 20 anos, a série foi um marco entre as obras paradidáticas, por ousar misturar ficção e realidade histórica nos textos dos volumes.
Doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Ciência Política pela Unicamp e ex-secretário acadêmico do Instituto de Estudos Avançados da USP, Edgard continua desbravando horizontes acadêmicos e intelectuais. Participou, em 2001, da fundação do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Edgard Luiz de Barros é o autor, entre outras obras, de Independência, incluída na coleção "O Cotidiano da História". É sobre este livro e outros assuntos, como o ensino da História para os jovens brasileiros, que o escritor falou ao Boletim Ática.
Boletim Ática: Como foi o surgimento da coleção "O Cotidiano da História"? Boletim Ática: E quanto ao volume Independência? Boletim Ática: Qual a sua avaliação sobre o ensino da História ministrado aos jovens brasileiros?
Edgard Luiz de Barros: Estávamos no início da década de 1980 e eu havia criado com alguns colegas o Centro de Estudos, Produções Editoriais e Assessoria (CEPEA). Dali saiu a idéia totalmente original de formularmos para a Ática uma série paradidática, destinada aos alunos de 5ª a 8ª séries, que apresentasse uma narrativa com roupagem ficcional, ao mesmo tempo em que descrevia fatos históricos relevantes.
A participação do professor Anderson Fernandes Dias, fundador da Ática, foi decisiva na elaboração da série. Esta articulação original entre ficção e realidade foi uma revelação significativa para alunos, professores e o próprio mercado editorial naquele primeiro semestre de 1983.
Edgard: Para este volume, criei o personagem Júlio, um tipógrafo que representa a parcela do povo brasileiro que ficou de fora das articulações que culminaram com a independência política do Brasil em relação a Portugal. A bem da verdade, a maioria esmagadora dos brasileiros ficou de fora. Independência reaparece agora reformulado, porém com as mesmas características do projeto original. A mesma trama está lá, assim como a excelente produção iconográfica. A esses dois itens inseriu-se um conjunto de conceituações históricas e historiográficas que proporcionaram um aspecto um pouco mais didático ao livro.
Edgard: Nos últimos anos, houve um inegável avanço nos estudos historiográficos. Contudo, os jovens estudantes do país acabam passando ao largo dessas conquistas. Muitas seqüelas enraizadas no ensino da História permanecem. Uma delas é a frieza com que os fatos históricos são apresentados; parece que se está falando de fatos ocorridos em um universo distante, fora da estrutura sociopolítica nacional. Falta ao estudo e ensino da História um sentido de "pertencimento", de que a realidade histórica abordada pertence a todos nós.
Outra forma absurda de se apresentar os fatos históricos brasileiros é a banalização pela chacota. Ou seja, no lugar de se discutir aspectos como a formação do Estado brasileiro, com sua estrutura praticamente inalterada durante quase duzentos anos, opta-se pela sátira que, ao invés de acrescentar, reduz o campo de compreensão dos fatos.
Em Independência, procurei mostrar que a idéia de "pertencimento" na interpretação histórica é fundamental. Não foram apenas aqueles "atores" mais lembrados que fizeram a independência do país. Foi todo o conjunto da sociedade, com seus personagens anônimos como o tipógrafo Júlio.
Data:
02/09/2003