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O trabalho literário de Heloisa Prieto pode ser lembrado por algumas obras marcantes no campo da ficção infanto-juvenil, tais como Balada, Lá vem história e Vice-versa ao contrário. No entanto, uma série, concebida e desenvolvida juntamente com o jornalista Gilberto Dimenstein, vem marcando indelevelmente sua produção literária.
Trata-se da "Cidadão-Aprendiz", na qual emerge o precioso personagem Mano, que está em todos os títulos. Seis volumes já foram publicados, sendo o mais recente Mano descobre a paz. Eventos terroristas de 11 de setembro de 2001, em Nova York, servem de pano de fundo para a construção do enredo que aborda situações de afeto e intolerância extremos.
Para falar dessa coleção e de seu volume mais atual, o Boletim Ática ouviu a escritora Heloisa Prieto, que não esconde sua satisfação com os resultados que a série vem colhendo desde seu lançamento, em 2001. "Muitas surpresas e realizações profissionais ocorreram em 2003, e uma delas foi justamente o sucesso da série. Os convites para palestras são tantos que fica difícil conciliar as datas, mas quando consigo falar com os leitores é muito gratificante", conta.
Boletim Ática: Como foi pensado o volume Mano descobre a paz? Então, partindo da premissa do Gilberto, cuja idéia central era a de escrever uma história semelhante à de Romeu e Julieta, tendo como pano de fundo a intolerância e incompreensão do mundo moderno, fui conversando com nosso leitor crítico e orientador, o psiquiatra Paulo Bloise. Aos poucos, percebi que tinha em mãos a oportunidade de falar sobre o amor incondicional, o amor que é celebrado na literatura sufi, do Oriente Médio, cuja sabedoria está presente em obras como As mil e uma noites. Fiquei muito feliz quando recebi o parecer crítico do Paulo - elogiando o caminho da narrativa, bem como o perfil psicológico dos personagens - e o e-mail do Gilberto dizendo que achava que tínhamos vencido o desafio proposto exatamente como ele almejava. Boletim Ática: Como avalia a importância de os jovens leitores depararem-se com conflitos contemporâneos, contradições afetivas e preconceitos arraigados ao lerem Mano descobre a paz? Sinto muita alegria quando recebo e-mails e notícias a respeito desse livro. A receptividade tanto do público quanto da crítica tem sido excelente. Boletim Ática: O que você e Gilberto Dimenstein pensam sobre o futuro da série? Boletim Ática: Especialmente para você, o que esta série representa?
Heloisa Prieto: O tema de 11 de setembro nasceu a partir de uma idéia do Gilberto. Foi ele quem sentiu vontade de escrever sobre esta catástrofe tão presente em nossas vidas. Num primeiro momento, pensei que não seria capaz de tocar no assunto de modo a potencializar mensagens de paz de um modo mais sutil. A pior coisa do mundo é escrever um texto piegas para jovens, eles não perdoam.
Heloisa: Sempre digo que narrar é uma forma de pensar a vida. Creio que levantamos vários pontos interessantes: a relação homem e mulher, a amizade masculina, a solidariedade na hora do perigo e a intolerância que ainda permeia as relações interpessoais, mesmo no mundo do jovem contemporâneo.
Heloisa: A coleção ainda terá mais dois volumes. O próximo já está totalmente delineado e, a pedido do Gilberto, um dos principais personagens da série morrerá. Levei muito tempo para aceitar o desafio de escrever sobre a perda e o significado da morte. Creio que seremos capazes de dar conta do recado até o final do ano.
Heloisa: "Cidadão-Aprendiz" tem sido um marco em minha vida. Cada vez que recebo um texto do Mano analisado por Paulo Bloise cresço muito como escritora, isso sem falar no quanto me ajudam esses constantes desafios proporcionados pela parceria com o Gilberto, um jornalista cujo talento está a serviço da conquista da cidadania. Confesso que, em relação ao final da série, meu único medo são as saudades que sentirei de personagens tão queridos.
Data:
14/11/2003