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Jiro Takahashi é um dos nomes emblemáticos do ambiente editorial brasileiro. Mesmo assim, o editor não perde de vista a memória de suas origens. "Para quem, como eu, nasceu e cresceu em Duartina, uma pequena cidade [do interior de São Paulo], a leitura sempre foi a maneira mais gostosa de alargar o mundo."
O duartinense entrou na Ática em 1966 e, pode-se dizer, foi um dos "fundadores" da quadragenária editora. Em entrevista ao Boletim Ática, ele conta passagens importantes que vivenciou no início e na consolidação da maior editora de livros do país, observando múltiplos aspectos - como a criação do conceito de livro paradidático -, além de comentar o atual panorama do mercado editorial, com destaque para a situação dos livros escolares.
Boletim Ática: Fale um pouco sobre sua relação com o mercado de livros. Como você se aproximou do segmento editorial? Totalmente envolvido pelo livro, decidi-me a conhecer também o outro lado do balcão. E o editor é um leitor privilegiado. Enquanto os leitores lêem os livros que estão sendo vendidos, os editores têm a oportunidade de ler os livros que ainda não foram publicados - e que, na maioria das vezes, nunca serão. Boletim Ática: E sobre sua história profissional na Ática, o que tem a dizer? Pouco a pouco a Ática foi ampliando suas linhas didáticas. Firmada a liderança na publicação de livros para o supletivo, a etapa seguinte foi entrar na área dos didáticos seriados. E, depois, acabou se transformando em uma grande editora das mais variadas linhas. Boletim Ática: O que a Ática representou em matéria de inovação editorial? Com os pés firmes nesse cenário em mutação, a Ática promoveu uma grande inovação editorial: criou um novo conceito para o Livro do Professor, com um visual que acertava o passo com o desenvolvimento da tecnologia gráfica da época. Assim, a Editora, que poucos anos antes vivia de mimeografar apostilas, passou a usar fotos, ilustrações coloridas, tabelas, gráficos. Percebemos que, mesmo em um período conturbado da vida nacional, de uma forma ou de outra, o estágio que a cultura de massas atingiu no Brasil permitiu que diminuísse a distância entre o gosto dos professores e o de seus alunos. Foi possível editar livros que visualmente agradavam os alunos e, pedagogicamente, os professores, que não tinham na época as condições favoráveis para desenvolver com qualidade sua missão formadora. E para que seus livros tivessem aceitação nacional, a Ática passou a solicitar pareceres de professores das mais diferentes regiões. Mas uma grande inovação foi o Anderson aceitar que experimentássemos os manuais, antes de aprovados e publicados. Dificilmente um livro testado deixava de ser um grande sucesso. Chegamos a doar 3 mil exemplares de uma cartilha para testes em escolas de várias regiões. Sou grato àqueles milhares de alunos que participaram do "laboratório", expondo com franqueza suas opiniões sobre textos de alguns monstros sagrados da nossa literatura. Boletim Ática: Como nasceu o conceito de livros paradidáticos? No começo dos anos 70, quando a Ática já estava consolidada como uma das principais editoras didáticas, começamos a trabalhar com o conceito de participar das atividades escolares o ano todo. A idéia agora era aperfeiçoar as fichas de leitura para outro material lúdico. Foi desse modo que surgiram os suplementos de trabalho, inspirados no que os jornais e revistas publicavam - como o Suplemento Infantil ou Feminino. Charadas, palavras cruzadas e legendagem de histórias em quadrinhos compunham o suplemento que passava a acompanhar todos os livros paradidáticos da Ática. Na época, eram assim chamadas as obras que não fossem didáticas, mesmo as literárias. Boletim Ática: A coleção pioneira foi mesmo "O Cotidiano da História"? Boletim Ática: A Ática publicou alguns títulos infanto-juvenis que são referência até hoje para as novas gerações de leitores, casos de Éramos seis ou A ilha perdida. Como a Editora encontrou esses livros e sua autora, Maria José Dupré? O que você teve a ver com essas publicações? Apesar do sucesso dos clássicos, sentíamos uma forte tendência entre os professores e alunos de trabalhar com autores contemporâneos. Foi o maior motivo para a criação da "Vaga-Lume", coleção cujo nome foi resultado de um concurso nacional aberto pela Editora. Nessa série, chegávamos a imprimir uma edição de 120 mil exemplares, que se esgotavam às vezes em menos de seis meses. Criamos um "herói" para ela, o Luminoso, que apresentava os livros numa linguagem visual muito identificada com os jovens da época. Os primeiros autores da série - Maria José Dupré, Ofélia e Narbal Fontes, Homero Homem e Lúcia Machado de Almeida - foram contatados por sua ligação a editoras que desativavam sua linha infanto-juvenil. Privilegiando a diversidade de temas, e aliada a um sólido planejamento de marketing, a "Vaga-Lume" transformou-se na coleção mais aceita no ensino fundamental até hoje. Em seguida, na segunda metade da década de 70, criamos uma coleção da qual me orgulho muito e que deve dar satisfação a muita gente, a "Para Gostar de Ler". Começou com um telefonema de Affonso Romano de Sant'Anna comentando chateado sobre a pequena vendagem dos livros de um cronista como Rubem Braga. Então, pensei comigo, "nenhum grande escritor rejeitaria a idéia de ver seus textos sendo muito lidos". Reunimos quatro dos maiores cronistas brasileiros: Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. Mais de 3 mil estudantes participaram da escolha das primeiras crônicas. Foi uma aceitação como poucas vezes se viu no mercado editorial. Centenas de milhares de exemplares sendo vendidos anualmente. Boletim Ática: Algumas coleções não pertencem mais aos catálogos da Editora; no entanto, especialmente nas de literatura, apareceram ficções de autores importantes, como Murilo Rubião e Antônio Torres. O que significou a publicação desses autores naquele momento, meados da década de 70? Há uma imagem, que me acompanha há muito tempo, quando reflito sobre o trabalho editorial: a de que ele é simultaneamente um "espelho" e um "martelo" da sociedade e do mercado. O trabalho editorial deve refletir a sociedade - caso contrário, ela não se reconhece nos livros - e martelar - senão, a sociedade não caminha no sentido das transformações. Foi com essa imagem em mente que discutimos a abertura de algumas linhas para participar do processo de "descongelamento" da literatura. Uma das coleções, a "Nosso Tempo", abrigaria autores reconhecidos pela crítica, mas que não encontravam espaço no mercado. Destacaram-se os títulos de Murilo Rubião, Roberto Drummond, Moacyr Scliar, Antônio Torres, Elias José, Clarice Lispector, entre outros. Ver hoje os livros desses autores largamente difundidos nas livrarias nos dá um grande orgulho de ter contribuído um pouco para isso. Outra coleção era a "Autores Brasileiros" e reunia jovens autores inéditos ou semi-inéditos. Internamente, houve uma curiosidade sobre sua criação. O Anderson queria tanto promover essa série que calculou uma provisão para que ela se sustentasse com um prejuízo de 20%. Durante um bom tempo, chamávamos a "Autores Brasileiros" de "coleção dos 20". Quem ouvia achava que iria parar no vigésimo título. Em poucos anos, chegou a uma centena. Para a época e para um jovem autor, a edição era muito bem cuidada, com capas coloridas, prefácios, fotos, entrevista com o autor, etc. Boletim Ática: Além dos livros paradidáticos, a Ática abriu uma linha de publicações acadêmicas de qualidade, com as coleções "Ensaios", "Fundamentos" e "Grandes Cientistas Sociais". Como surgiu essa proposta? Dei assistência ao Granville Ponce, que assumiu a coordenação da coleção "Ensaios", apadrinhada por Antonio Candido e com um conselho formado por professores do mais alto nível. Seu objetivo era tornar acessível a produção intelectual da universidade brasileira. Na seqüência vieram outras coleções, como a "Grandes Cientistas Sociais", coordenada por Florestan Fernandes, e as coleções "Princípios" e "Fundamentos", organizadas por Samira Campedelli e Benjamim Abdalla. Estas últimas se transformaram em material de largo uso nas universidades do país, por serem econômicas e refletirem as necessidades reais das salas de aula. Boletim Ática: Como era a participação de nomes importantes da intelectualidade brasileira na escolha e edição de diversos títulos da Ática? O que significou essa experiência na Editora, com a participação de nomes como Florestan Fernandes, Rui Coelho e Alfredo Bosi? Boletim Ática: Como avalia o panorama editorial hoje, em particular das publicações escolares? O que mudou em relação ao início de sua experiência na Ática? Boletim Ática: Como está sua vida? Lidando com muitos projetos? Tenho projetos editoriais de livros que reflitam sobre o mercado editorial e a difusão da leitura. Para quem, como eu, nasceu e cresceu em Duartina, uma pequena cidade, a leitura sempre foi a maneira mais gostosa de alargar o mundo. Para completar, costumo dizer uma coisa, partindo de uns versos de Jorge Luis Borges, que reflete um pouco o meu sentimento sobre esses anos de trabalho editorial: que outros se jactem dos livros que editaram, a mim me orgulham os leitores dos livros que editei.
Jiro Takahashi: Minha relação com o mercado de livros foi, é e será essencialmente de leitor. Por ter familiares ligados à literatura, tive a felicidade de ver muitos livros perto de mim desde criança. Meu pai fez hai-kais, um de meus tios foi fundador da Sociedade Brasileira de Tanka, outro - Yoji Fujyama - foi talvez o primeiro poeta nissei do Brasil, no final dos anos 50. Esse contato desde cedo talvez tenha ajudado a despertar a paixão que tenho pelos livros.
Jiro: Entrei na Ática em 1966, quando me mudei para São Paulo, por ter passado no concurso do Banco do Brasil. Fui fazer cursinho no Santa Inês, que tinha acabado de criar a Editora Ática para transformar em livros mimeografados as apostilas de seus cursos. Meu primeiro trabalho foi datilografar as apostilas em estênceis, para serem mimeografadas.
Jiro: Tudo o que a Ática fez e representou em termos de inovação não teria sido possível sem a direção de Anderson Fernandes Dias [fundador da Editora]. Sob seu comando, em reuniões quase diárias, os editores procuravam traçar planos editoriais que privilegiassem alguns diferenciais em relação às outras editoras. A percepção de que o verdadeiro cliente - ou vendedor, dependendo da perspectiva - do livro didático era o professor não era nova. Porém, o Conselho da Ática percebeu que, embora a essência da educação não se alterasse, o cenário da educação brasileira estava mudando radicalmente em termos quantitativos em função da reforma do ensino de 1971, principalmente com a obrigatoriedade do ensino até a 8ª série. Isso trazia conseqüências para a qualidade e para o trabalho cotidiano do professor.
Jiro: Em 1968, a Ática havia começado a publicar os clássicos da literatura brasileira, criando a série "Bom Livro". Uma inovação editorial foi a inserção da Ficha de Leitura, um diferencial em relação às demais publicações de clássicos. Em poucos anos, todas as edições no mercado passaram a ser acompanhadas dessas fichas.
Jiro: Sim. No início dos anos 80, ela trouxe uma grande inovação para o ensino de história no ensino fundamental, ao privilegiar o cotidiano e o processo, caminhando no sentido contrário da tradição de se estudar por datas e personalidades.
Jiro: Inicialmente, dois títulos - Éramos seis e Coração de onça [de Ofélia e Narbal Fontes] - foram lançados em 1973, dentro da já consagrada série "Bom Livro", como um balão-de-ensaio. Aprovados, eles fizeram parte dos quatro primeiros títulos da série "Vaga-Lume" [A ilha perdida e Cabra das rocas, de Homero Homem, foram os outros dois].
Jiro: Como dizia o escritor João Antônio, a literatura da década de 70 vivia um período de "congelamento". As editoras continuavam a publicar autores consagrados, em tiragens modestas. Era raro deparar com algum novo autor. No entanto, a imprensa abrigava em seus suplementos os jovens escritores, que também tinham nos concursos literários outro espaço para os seus textos.
Jiro: Abranger a área universitária também foi resultado da constatação das mudanças ocorridas no início dos anos 70, com o início da explosão desenfreada das faculdades privadas e logo após a crise dos excedentes do fim dos anos 60.
Jiro: Florestan Fernandes e Antonio Candido, particularmente, tornaram-se nossos grandes consultores. Deles partiam muitas vezes a indicação dos nomes para os diversos conselhos da Editora, além dos títulos e autores. A liderança e o respeito que eles desfrutavam no meio acadêmico constituíam-se no melhor aval para os projetos nessa área. Algo que testemunhei foi a liberdade e a autonomia que o Anderson dava para eles e para os vários conselhos responsáveis pelas coleções. Só mais tarde soube como é rara essa postura nos meios intelectuais.
Jiro: Nos últimos dez anos, a compra governamental de livros em larga escala, uma das maiores compras institucionais do mundo, é um fato que tem afetado o panorama dos livros didáticos. Como o governo estabelece suas normas de compra, elas se tornam referências para a produção. Porém, como a cada novo programa algumas normas são alteradas, os autores e as editoras vão se ajustando a elas. Ao lado de várias vantagens que isso traz, como um padrão mínimo de qualidade, ocorre também um processo de "atendimento" aos quesitos do cliente, minimizando a ousadia na criação, fundamental quando se pensa em educação. Porém, mesmo que por vias transversas, esse novo panorama vem privilegiando um ambiente muito mais profissional de produção que nas décadas passadas. Se o governo caminhar no sentido da certificação constante e em qualquer período da qualidade dos livros - e não apenas dentro dos prazos dos programas específicos -, isso trará grandes benefícios para o planejamento dos editores, para a criatividade dos autores e para a aprendizagem mais abrangente e mais formadora dos estudantes.
Jiro: No momento, dou aulas de Teoria Literária no curso de letras, tradutor e intérprete da Unibero. Na área editorial, após uma bela experiência de alguns anos na Ediouro, estou na Geração Editorial, atuando nas linhas de ficção nacional e estrangeira, reportagens e ensaios. Além disso, desenvolvo cursos livres ligados à edição de livros, para passar um pouco dessa minha experiência nesses anos todos.
Data:
13/07/2005