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Com uma notável habilidade para construir personagens e costurar enredos eletrizantes, Luis Eduardo Matta estréia agora no segmento juvenil, com o livro Morte no colégio, pertencente à série Vaga-Lume. Autor de outros três livros, Luis Eduardo encontrou nas obras de suspense sua principal fonte de inspiração.
"Gosto muito de muitos livros e admiro tantos escritores que seria incapaz de mencionar um ou dois. Mas sempre tive especial predileção pelos livros de suspense, mistério e espionagem, os chamados thrillers", afirma o autor carioca.
De fato, Morte no colégio tem todos os ingredientes de uma trama ágil e instigante. Dois irmãos adolescentes, Ivan e Sofia, estudam no mesmo colégio e, desde que seus pais faleceram, vivem com seu tio Fausto, um pesquisador obstinado que se dedica a escrever uma exaustiva História definitiva da civilização.
Após o recebimento de alguns bilhetes ameaçadores, os jovens procuram seu Moacir, diretor do Colégio Educandário Dois Irmãos, mas, ao entrarem na sua sala, o encontram morto. A partir daí, entram em cena personagens variados e pistas enigmáticas que podem levar à elucidação do assassinato. Não custa lembrar que, dias antes, tio Fausto também estivera na mesma sala batendo um longo papo com seu Moacir.
No núcleo da trama há um conjunto de documentos de valor inestimável, conhecidos como Manuscritos de Éfeso. Supõe-se que neles esteja a revelação do verdadeiro lugar onde existiu o continente perdido de Atlântida, berço de uma civilização muito desenvolvida que teria sido tragada pelo mar. Platão, o magnífico filósofo, foi quem deixou essa história registrada - ou isso tudo não passaria de uma lenda?
Acompanhe a seguir a entrevista que Luis Eduardo Matta concedeu ao Boletim Ática. Nela, o autor dá mais detalhes sobre o enredo de Morte no colégio, o trabalho de pesquisa que realiza antes de escrever suas obras, as dificuldades de leitura dos jovens brasileiros e seus projetos para o futuro.
Boletim Ática: Fale sobre sua formação e principais interesses na atualidade. Luis Eduardo Matta: Eu nasci no Rio de Janeiro, em 1974, e fui criado entre a cidade do Rio de Janeiro e uma chácara no interior, onde passava alguns meses do ano. Minha formação é, sobretudo, autodidata. Apesar de eu ter estudado em bons colégios e de ter tido professores excelentes, nunca me limitei ao currículo escolar e sempre procurei ir além, pois tinha uma sede constante de conhecimento e uma enorme curiosidade em relação ao que não fazia parte do meu dia-a-dia. Comecei a escrever muito cedo, aos 17 anos. Meu primeiro livro, Conexão Beirute-Teeran, foi publicado em 1993, quando eu tinha 18 anos. Embora desde menino eu tenha a leitura como um hábito diário e regular, acredito que a minha vocação literária surgiu de uma necessidade de exteriorizar um mundo criativo que sempre pulsou dentro de mim. Esse mundo da fantasia, que é característico da infância, é algo muito presente na minha vida até hoje. De um modo geral, o ingresso na vida adulta cobra das pessoas uma ruptura com o seu lado infantil, mas eu, felizmente, soube conservar essa vertente criativa, que se uniu naturalmente ao meu imaginário adulto, sem ameaçá-lo. Meus interesses são muitos. História, política internacional, história das religiões, literatura e artes em geral são alguns deles. Também tenho grande curiosidade em saber como vivem outros povos, conhecer novas culturas; sair, sempre que possível, do meu mundo e desbravar outros mundos. Essa descoberta constante de novas realidades é, mais do que um desafio, uma verdadeira aventura. Aliás, sempre tive paixão pelo universo da aventura. Boletim Ática: Como nasceu o enredo de Morte no colégio? Luis Eduardo Matta: Foi em setembro de 2004, durante uma visita a uma exposição dos Pergaminhos do Mar Morto, no Rio de Janeiro. Sempre tive um grande fascínio por essa que foi uma das maiores descobertas arqueológicas do século XX. Eu já estava há alguns meses pensando em escrever literatura juvenil, mas queria fazer algo que se diferenciasse um pouco do que já existia no Brasil no gênero. Então, naquela tarde da exposição, um turbilhão de idéias surgiu na minha cabeça e eu percebi que poderia criar um livro que misturasse mistério, suspense e história da Antiguidade, a partir de um dos maiores enigmas da humanidade, que é a lenda de Atlântida, o continente perdido. Morte no colégio foi, até hoje, um dos livros que mais me deram prazer em escrever. Boletim Ática: Qual a razão e utilidade das pesquisas que você empreende antes de iniciar suas obras? Luis Eduardo Matta: As pesquisas, na minha produção literária, são quase tão fundamentais quanto o processo criativo. Porque os meus livros, apesar de serem obras de ficção, estão inseridos num universo real que precisa soar factível para o leitor. A minha intenção é fazer com que o leitor acredite que todas aquelas situações ficcionais poderiam ter acontecido realmente. Então os cenários e as informações históricas, políticas e geográficas são quase sempre reais. Quando descrevo, por exemplo, uma cena num restaurante na Síria, você pode ter certeza de que aquele restaurante existe - ou que, ao menos, existiu, na época em que o livro é ambientado -, que possui aquela decoração e que serve aqueles pratos, porque isso tudo foi obtido por meio de uma pesquisa minuciosa. Há também as pesquisas que realizo sobre temas específicos. Para escrever Morte no colégio, por exemplo, tive de estudar bastante o mito de Atlântida, que é uma das espinhas dorsais do livro. Já num outro romance meu, 120 horas, fiz uma grande pesquisa sobre o mundo da moda, pois uma das personagens principais é estilista de moda e eu não trabalho no ramo. Embora sejam muito trabalhosas, essas pesquisas me dão genuíno prazer, pois com elas realizo descobertas maravilhosas e acabo fazendo viagens extraordinárias pelo mundo e pela história sem sair do lugar. Para mim, é uma das partes mais estimulantes da composição de um livro. Boletim Ática: Morte no colégio pode ser considerado um romance juvenil de puro entretenimento? A propósito, o que você pode dizer dessa primeira experiência literária nesse segmento? Luis Eduardo Matta: Ele é, sobretudo, um livro de entretenimento. Mas tem também um embasamento cultural. Todos os meus livros, aliás, são assim. Não faço um entretenimento vazio e, sim, um entretenimento com algum conteúdo, onde, através de uma história que procura capturar a atenção do leitor numa trama de mistério e aventura, eu transmito, de forma sutil, informações e conhecimento. Essas informações estão, penso eu, naturalmente incorporadas ao texto. Para mim é muito gratificante poder usar esse meu método de escrita na literatura juvenil. Mesmo porque o entretenimento faz falta na literatura brasileira em geral. Ele é escasso, o que é uma pena, pois é um grande formador de leitores. Boletim Ática: Quais os autores e gêneros literários de sua predileção? Luis Eduardo Matta: Eu sou um leitor bastante eclético, que aprecia quase todo tipo de literatura. Gosto muito de muitos livros e admiro tantos escritores que seria incapaz de mencionar um ou dois. Mas sempre tive uma especial predileção pelos livros de suspense, mistério e espionagem, os chamados thrillers. Foram eles, aliás, que me introduziram no hábito da leitura, quando eu tinha 10, 11 anos. A minha vida não teria sido a mesma se não fosse a literatura. Boletim Ática: Que reflexão podemos fazer sobre as dificuldades dos jovens brasileiros em transitar com facilidade pelo território da leitura? Luis Eduardo Matta: Esse é um assunto que me mobiliza e me preocupa muito, sobretudo, como cidadão atento aos rumos desse país. Tenho publicado artigos e pequenos ensaios a esse respeito, pois é um tema da maior importância e que, infelizmente, não vem recebendo a atenção merecida. Todos se queixam da escassez de leitores no Brasil, mas poucos mencionam a raiz do problema: a formação de leitores e o estímulo à leitura, que é deficiente, sobretudo naquele momento delicado da adolescência, em que o jovem faz a passagem da literatura juvenil para a adulta. É uma transição traumática, pois ele pula de livros como, por exemplo, os das séries Vaga-Lume e Sinal Aberto diretamente para a literatura clássica brasileira, por conta do vestibular, que cobra a leitura desses livros nas suas provas. E as escolas não podem fugir dessa responsabilidade, afinal, é papel delas, entre outras coisas, preparar os alunos para o vestibular. O ideal, a meu ver, seria que essa transição literária fosse mais gradual. Que depois dos livros juvenis, os adolescentes fossem apresentados a uma literatura adulta mais acessível. Livros policiais, de mistério ou sentimentais contemporâneos, por exemplo, são excelentes formadores de leitores. Não precisam ser, necessariamente, livros brasileiros. Por mais duro que isso seja, nós temos que enxergar a realidade: os adolescentes contemporâneos, em sua maioria, dificilmente irão se encantar com a literatura sendo obrigados a ler livros de José de Alencar, Machado de Assis ou Guimarães Rosa para fazer um teste de interpretação dali a um ou dois meses. São autores extraordinários, mas de muito difícil digestão para a maioria. Basta conversar com os jovens nas escolas para constatar isso. Ainda mais num mundo como o de hoje, repleto de apelos tecnológicos extremamente sedutores e que rivalizam com a leitura de uma forma quase covarde. E essa situação, com o passar dos anos, tende a piorar. Sempre digo que o mais importante numa aula de literatura não é fazer com que os alunos tenham contato com a melhor literatura e, sim, despertar neles o genuíno prazer pela leitura. A leitura somente se incorpora ao nosso dia-a-dia se for encarada como uma atividade de lazer. Uma vez que esse prazer é despertado, muitos desses jovens terão curiosidade de ler livros clássicos, mais sofisticados. E os lerão de fato, com gosto, tirando deles o melhor proveito. É preciso que a formação de leitores no Brasil seja repensada e se torne uma questão de máxima prioridade do governo. Inclusive no apoio aos educadores, que deveriam ser os profissionais mais valorizados e estimulados numa nação tão carente de conhecimento como a nossa. Boletim Ática: Você possui uma página web e colabora num site de prestígio, o Digestivo Cultural. Qual sua avaliação sobre o futuro da internet em nossas vidas, particularmente nos quesitos escrita e leitura? Luis Eduardo Matta: A internet ainda é um fenômeno muito recente, se pensarmos em termos históricos. Para mim, é difícil fazer uma previsão sobre o papel dela no futuro, ainda mais se considerarmos o ritmo veloz no qual a tecnologia vem se renovando. Mas eu tenho uma grande simpatia pela internet e sou bastante otimista quanto ao seu futuro. Sobretudo porque, além de ser uma grande difusora de informação, ela pode ser uma importante aliada no fomento à cultura e ao conhecimento. E também no estímulo à leitura. Basta sabermos usá-la. Boletim Ática: Podemos esperar um Morte no colégio 2? Luis Eduardo Matta: Claro que sim. Minha intenção é escrever uma série de livros sobre a busca pelos Manuscritos de Éfeso e o continente perdido de Atlântida. Morte no colégio é apenas o primeiro. O tema é inesgotável e eu já tenho idéias para várias histórias, todas de mistério e aventura, envolvendo os mesmos personagens principais. Eles vão se defrontar com enigmas, viajar pelo mundo, se envolver em perigos, descobrir segredos da Antiguidade e, quem sabe um dia, chegar à verdade sobre o lendário continente perdido. Boletim Ática: Quais os seus planos literários para o futuro próximo? Luis Eduardo Matta: Continuar escrevendo, sempre dentro da linha de mistério e suspense. Morte no colégio é a minha estréia na literatura juvenil e, de 2007 em diante, vou conciliar a publicação de livros juvenis com os meus thrillers para o público em geral. Nesse momento, estou dando os retoques finais em dois livros - um juvenil e um thriller adulto - que devo publicar nos próximos meses. Esse juvenil ainda não é a continuação de Morte no colégio. É um livro que estou preparando para uma outra coleção e que pretendo, também, transformar numa série.